Autopoeta

Obama, o óbvio

Amig@s,

Este texto foi escrito poucos dias depois da reeleição do Barack Obama e, fugindo da obviedade, Arnaldo nos traz um texto muito interessante, contextualizando a vitória de Obama em uma perspectiva histórica.

Uma visão positiva e coerente que indica mudanças profundas na sociedade global. Vale conferir

 

OBAMA, O ÓBVIO

Arnaldo Bloch

 

É claro que passamos em claro a noite de terça para quarta-feira. A Grande Noite. Não no sentido do mito poético, tradicional, criado pelos franceses (“Le grand soir”) e sonhado pelos marxistas e anarquistas desde a virada do século XIX para o XX, de uma noite mágica e decisiva, momento em que ocorre a ruptura revolucionária com restabelecimento de uma nova ordem social, política e econômica, com a morte da estrutura previamente em vigor.

Refiro-me a uma grande noite com letras minúsculas, banalizada, parte da rotina das nações, no sentido contemporâneo, calculado, de espetacularização do processo político transmutado em showbiz.

Uma grande noite eletrônica e colorida, de estatísticas, mapas e gráficos altamente performáticos e velozes. Uma corrida, voto a voto, com locução de turfe, por um resultado já previamente esperado, mas cujo suspense deve ser alimentado até os limites da razão, não apenas em nome da lisura do devido processo eleitoral, mas da monetização da devida audiência televisiva.

Como no futebol, haverá sempre emissoras mais entusiastas desse ou daquele time (no caso, os azuis contra os vermelhos), e isso faz parte da diversão lúdica, quase desprovida de conteúdo de fundo, que mantém o público ligado. Este ano, por exemplo, a Fox, vermelha, anunciou a vitória de Obama antes da CNN, azul. Surpreendente para quem acompanha a birra tradicional entre as duas emissoras e as constantes piadas que Obama faz sobre o canal que lidera a oposição aos democratas. Faz pensar: será que a autocrítica republicana, necessária e até urgente, começará pela mídia conservadora, e não pelo partido?

Mesmo assim, muitos veem, na noitada em que Obama se reelegeu, um fato revolucionário, uma Grande Noite à antiga. Ou, pelo menos, a continuação renovada de uma revolução que se iniciou numa outra grande noite, quatro anos atrás, quando ele se tornou o primeiro presidente negro americano e comoveu o mundo.

A revolução, contudo, já estava ocorrendo, dia a dia, noite a noite, numa sociedade cada vez mais estratificada demograficamente.

O que a grande noite da reeleição demonstrou foi que a coalizão de minorias e mulheres que elegeu Obama para o primeiro mandato não se desfez, apesar de ter perdido em força numérica devido a circunstâncias da realidade econômica (a crise que Obama herdou de Bush e com a qual lidou de forma controversa).

Vinha ocorrendo também nos costumes, vegetativamente, na forma mais de evolução gradual do que de revolução, e Obama foi o vetor escolhido para sinalizá-la e, agora, tem a oportunidade de tentar consolidá-la.

O que muitos viram, nas primeiras horas da manhã de quarta-feira, como o “discurso inspirador de Obama” não passou, portanto, de uma saraivada de obviedades. Nem podia ser diferente, e tampouco é um demérito. Obama se transformou no porta-voz óbvio dessa marcha que já está em curso mas que foi ralentada pelas dificuldades que ele teve para implementar sua agenda, pelo pragmatismo do debate político norte-americano, por alguns lances demagógicos e contradições gestadas no fosso entre sonho e realidade e pela complexidade das conjunturas local e internacional.

Mas também, e talvez sobretudo, por estarmos vivendo uma era em que não existem grandes estadistas que promovam grandes revoluções. Uma era na qual um político como Lula é considerado, por partidários e adversários, um gênio, mais por seu talento estratégico do que por sua estatura moral ou por ter promovido uma transformação realmente extraordinária. A figura do Estado perdeu força, as corporações e as finanças ganharam prevalência sobre os valores éticos e a velocidade do consumo da informação é mais importante que o saber propriamente dito. Assim tem sido também em outros países, monitorados pela comunidade global: aumentam os processos e a as mobilizações multilaterais, em revoluções nem sempre imediatamente perceptíveis. Nesse sentido, como sempre, só o tempo consolida a real transformação.

Nada disso significa que o óbvio de Obama não seja fundamental, dentro de um cenário político tão medíocre e esparso. Se não promove uma revolução nem traz novas ideias mobilizadoras para o segundo mandato, Obama, por outro lado, salvaguarda a retórica e, até certo ponto, a prática, de uma série de princípios que estiveram em desuso em seu país nos tenebrosos anos Bush. Um país que, para o bem ou o mal, queira-se ou não, ainda é, embora não o único, o farol “regulamentar” e regulador do planeta.

Estes princípios referem-se a um diálogo permanente com a comunidade internacional; a uma noção de que distribuir renda não é sinônimo de instaurar o socialismo; à determinação de que a única lógica não é a econômica; à percepção de que a moderação é preferível à interferência; à evidência de que a sociedade é, e deve permanecer, plural; a uma capacidade de compreender que a diferença e a singularidade devem ser respeitadas e estimuladas sem que se confundam com individualismo e comunitarismo radical, quase racista. Em resumo, tudo aquilo que é, ou deveria ser, o óbvio.
http://oglobo.globo.com/cultura/obama-obvio-6687443

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