Autopoeta

Gaiola sem Grades

 

 A DONA DE UMA GAIOLA SEM GRADES

 

 

Autor Desconhecido

 

Era uma gaiola sem grades com dois passarinhos.

 

Suas asas não estavam cortadas e eles nem tão pouco pareciam ser domesticados. Não sou um especialista em aves, mas podia jurar que eles tinham a cor do céu e cantavam com sotaque de liberdade, pois seu canto não lembrava nada aquele velho cantar de cativeiro.

 

A Dona da gaiola não era necessariamente a dona do casal de passarinhos e sim uma amiga que servia comida e água e em troca os pássaros retribuíam com canto.

 

Jamais tinha visto gaiola assim. Já tinha visto cativeiros com grades douradas e gaiolas de madeira nobre com poleiro de marfim. Já tinha visto cativeiros gigantes que “abrigavam” centenas de passarinhos e gaiolas tão pequenas que o passarinho mal conseguia pular de um canto pro outro. Mas nunca havia visto gaiola com grades de vento, onde os pássaros tinham o direito de ficar ou partir; de ir e vir.

 

– Voa tudo por aqui – disse Dona Joana – Canarinho, Sabiá, Pardal e, de vez em quando, tem ate beija-flor. É uma benção, não é?

 

Sim, era uma benção, mas vinha da terra, do lugar onde vivem os homens que prendem animais em jaulas, pássaros em gaiolas e uns aos outros com o laço do egoísmo, sob a desculpa do “prender para cuidar”.

 

– Eu gosto muito de passarinho e ao perceber que muitos deles passavam aqui pelo quintal, pedi ao meu marido que fizesse essa gaiola sem grades – explicava Dona Joana, que morava até numa rua com nome de passarinho – coincidência, não é?

 

Coincidência? Não, Dona Joana! Truque divino, para mostrar para a senhora e para esse peregrino que, quem gosta de passarinho, não curte canto de presídio; pois canto livre de passarinho é muito mais bonito; não aceita algemas, grades, chantagens ou possessão; afinal, nada nem ninguém nos pertence e se tem algo que aprendi nessa estrada é que onde há coração há respeito, empatia e consideração. E isso não se aplica apenas para seres humanos, mas para todos os seres vivos que dividem esse planeta com a gente.

 

– A senhora nunca teve passarinho PRESO em gaiola? – perguntei, querendo saber o que não devia; querendo tentar ver alguma rachadura naquele jarro perfeito que era a Dona da Gaiola sem grades.

 

– Claro que já tive passarinho preso em gaiola. – explicou – Nasci e me criei no interior; atirando pedra em passarinho, armando arapuca e dormindo sob um teto cheio de gaiolas com todo tipo de pássaro que a gente pegava no mato. A sorte dos passarinhos era que minha pontaria era terrível; o mesmo não podia ser dito sobre a pontaria do meu irmão que usava estilingue como ninguém.

 

Um dia consegui acertar um passarinho. Era a primeira vez que eu acertava algo com o meu estilingue, mal podia acreditar na minha sorte; porém o bichinho morreu com o impacto da pedra e o seu corpinho ali no chão mexeu comigo.

 

Meu irmão pulava e ria, enquanto eu ajoelhada no chão, olhava o passarinho morto que até segundos atrás voava recheado com vida. Uma coisa é matar os bichos por necessidade, como fazem os índios; outra bem diferente é matar por maldade, sob a bandeira da ignorância e da imaturidade. Naquele momento nasceu meu respeito pelos bichos e minha incapacidade de vê-los presos em cativeiro. Afinal, lugar de pássaro é no céu, assim como o de peixe é no rio. Para mim, mais vale dois passarinhos no céu, que um preso nas mãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta

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  1. kevin said, on dezembro 17, 2011 at 12:58 pm

    eu simplesmente so queria uma gaiola e voces nao tem caprixe mais da proxima vez


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