Autopoeta

O PRINCÍPIO DA AUTORREGULAÇÃO

Posted in ciência, consciência, sociedade by autopoeta on agosto 30, 2013
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Water Lilies, 2013 – http://ryanmcginley.com/

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Autorregulação é aqui compreendida como o conjunto de reações fisiológicas coordenadas que mantêm o equilíbrio dinâmico do corpo*, engendrando estados de saúde e bem-estar.**

Este princípio dispõe de uma base biológica sólida e praticamente irrefutável. Walter Bradford Cannon, biólogo que cunhou a palavra ‘homeostase’, fala de uma ‘sabedoria do corpo’: “a autorregulação constitui o fato biológico por excelência”.

Wilhelm Reich pode ser considerado o ‘cientista da autorregulação humana’, visto que este princípio é proposto com uma constância excepcional em seu trabalho e ocupa um lugar central em seu pensamento.

Como psicanalista e clínico, Reich aplicou o princípio da autorregulação de maneira concreta, original e eficaz. Nas palavras de seu biógrafo Roger Dadoun:

“O indivíduo, quando consegue prescindir em certa medida das resistências e inibições neuróticas, das pesadas sublimações morais, da angústia sexual, descobre uma capacidade maior para a autonomia, para a realização de equilíbrios dinâmicos, flexíveis, uma melhor regulação de sua existência: no trabalho, no amor, nas relações com os outros; tudo acontece como se o afrouxamento da ‘couraça’ liberasse uma espécie de competência espontânea, uma aptidão para autodeterminar-se, aniquilada, atrofiada ou neutralizada pela influência das instituições sociais e dos modelos culturais”.

Reich dizia: “As energias vitais, em condições naturais, têm uma regulação espontânea. Isso acontece no homem e em todos os outros organismos viventes”.

Para Reich, a autorregulação assegura a circulação energética, a articulação pertinente, os vínculos esclarecedores. ‘Vivente’, ‘vital’, ‘natural’, ‘biológico’, ‘espontâneo’, ‘vegetativo’, são os grandes conceitos que sustentam seu pensamento.

A ousadia de Reich foi fazer circular o princípio da autorregulação do domínio da biologia tradicional para o domínio da sexualidade – o domínio do proibido, do reprimido, do maldito, corroído pelas ideologias e obstruído pelas disputas religiosas e econômicas – e, como consequência, para a sociologia e a política.

O vínculo extremamente forte – originário, energético, estrutural, funcional – que ele propôs entre sexualidade e autorregulação, ou seja, a expressão sadia dos potenciais sexuais induzindo estados de integração e equilíbrio dinâmico, emergiu no campo político e social como algo inaudito, escandaloso, assombroso, subversivo, explosivo.

Afinal, desmantelava o sistema de crenças, atitudes, concepções e ‘visões de mundo’ que constituíam e ainda constituem nossa cultura, atribuindo à sexualidade um lugar de transbordamento, desordem e falta de regulação.

Reich apresentava uma visão muito diferente e veio comprovando na prática clínica que a regulação das funções instintivas promove pessoas mais aptas ao convívio e, consequentemente, engendra uma sociedade mais integrada, com a circulação de energia mais equilibrada, mais hábil para regular suas tensões e encadear estados de harmonia e bem estar.

A visão onipresente era, contrariamente, a de uma sexualidade que desencadeia o caos social e é considerada uma potencia antagônica à autorregulação, sendo vilipendiada e atacada, alvo de todas as formas possíveis e imagináveis de tabus, proibições e sistemas morais.

Bem no período entre as duas grandes guerras mundiais, na Alemanha nazista e na União Soviética stalinista, e no mundo em geral, Reich levantou a poeira e pôs o dedo em uma ferida antiga que teima em não cicatrizar.

Pode-se inferir que, historicamente, um longo processo repressivo parece ter levado a um desmantelamento da autorregulação biológica no nível individual e coletivo.

O esvaziamento e a mutilação do impulso natural sexual agudizou comportamentos neuróticos e amplificou os efeitos distorcidos da atividade sexual, gerando um círculo vicioso de reforço às noções de desordem e confusão associadas à liberdade instintiva.

Reich denuncia a sociedade contemporânea como antissexual, particularmente empenhada em eliminar qualquer forma de autorregulação da existência humana.

Essa denúncia é bem ilustrada em uma passagem do livro “1984”, de George Orwell, em que diz o representante do partido: “O instinto sexual será extirpado… nós aboliremos o orgasmo”.

Reich alertava para a profunda cisão gerada por um falso dilema – autorregulação ou regulação social? – capaz de aprisionar todos os seres humanos em uma cultura que se apoia na renúncia das pulsões instintivas e vê como necessária a não-satisfação sexual (repressão, rejeição ou qualquer outro mecanismo) para que seja possível o convívio em sociedade.

Mas qual foi o momento singular do passado que teria marcado de maneira decisiva o desvio da autorregulação sexual em proveito do poder social?

Em seu livro “A Irrupção da Moral Sexual Repressiva”, Reich desenvolve a ideia de que a moral antissexual e compulsiva que nos dirige hoje se inscreve na história humana com o advento do patriarcado e a passagem da sociedade de parceria para a sociedade de dominação, em que a democracia do trabalho é suplantada pela acumulação de riqueza no seio de uma mesma família nuclear.

Herbert Marcuse, em “Eros e Civilização”, corrobora esta visão de Reich ao dissertar sobre a necessária condição de carência sexual de um indivíduo para que este possa aceitar servir de ‘burro de carga’ para outrem.

Ao longo dos séculos, cada vez mais distanciados do estado de autorregulação, homens e mulheres tornaram-se mão-de-obra e adentraram uma jornada histórica caracterizada pelo represamento de suas emoções e sentimentos, gerando um afastamento de sua própria natureza. Sob a égide do patriarcado e sua vontade de poder, os vínculos entre ‘cultura de dominação’ e ‘repressão instintiva’ se acentuaram ao longo dos séculos.

Esta é a pedra fundamental de grande parte das mazelas da sociedade humana e gera uma enfermidade social à qual Reich atribuiu o nome de “peste emocional”.

Nesse contexto de enfermidade, o princípio da autorregulação de Reich ganha enorme relevância e todo tipo de esforço é válido no sentido de aplicá-lo no âmbito das relações humanas.

Sendo sua posição terapêutica central, a aplicação do princípio da autorregulação visa invariável e obstinadamente o mesmo objetivo: RESTABELECER O AMOR NATURAL NAS CRIANÇAS, ADOLESCENTES E ADULTOS.

Segundo Reich, somente este processo será capaz de eliminar as neuroses e com elas todos os desdobramentos da peste emocional.

O princípio da autorregulação é, portanto, o limiar de uma ‘nova era social’. Seu prolongamento no campo sócio-político-econômico é o fim do trabalho alienado e o advento do trabalho prazenteiro em vínculos de cooperação e autogestão.

No domínio do conhecimento, o princípio da autorregulação também origina uma transformação radical, visto que a ciência, os costumes e a indústria cultural também são atividades alienadas.

Afinal, são diferentes do que poderiam ser, posto que romperam os vínculos ‘naturais’, organizando-se cada vez mais à margem dos processos vitais, evocando valores e práticas artificializantes, em estreito diálogo com os interesses econômicos da sociedade de consumo.

O princípio da autorregulação é mais do que pode suportar uma sociedade de erosão, morte, fragmentação e infelicidade, que se vê ameaçada na própria raiz de seu ser por uma filosofia fundamentada no potencial criativo organizador intrínseco dos sistemas vivos.

A autorregulação é a chave para a ‘grande virada’ e por isso é combatida através de uma vigorosa engenharia do consenso. Nas palavras de Reich:

“Nenhum elemento da minha teoria atraiu sobre meu trabalho e minha existência maiores perigos que a afirmativa de que a autorregulação é possível, existe atualmente e é suscetível de uma extensão universal”.

Aqui focamos nossa atenção para além de uma antropologia, uma sociologia e uma psicologia que se esforçam para adequar o ser humano a uma cultura antissexual que desacredita a autorregulação e que considera a repressão instintiva a única forma de conter os impulsos humanos e assim permitir a vida em sociedade.

Aqui celebramos uma visão de mundo e um plano de ação: UM MODELO DE VALORIZAÇÃO DA NATUREZA, DA SABEDORIA DO CORPO, DA COMPETÊNCIA ESPONTÂNEA E DO AMOR NATURAL.

Em suma, estar aberto à própria natureza é o que importa agora.

A inteligência organizadora que advém da autorregulação cuidará de facilitar o nosso trabalho de cura e evolução.

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* A autorregulação opera no corpo em todos os níveis, seja no caso de “equilíbrios de massa”, como peso, altura, estabilidade, proporções, como em “equilíbrios infinitesimais”, como a gama inumerável de regulações químicas, intervenções hormonais, vitamínicas, enzimáticas, etc.

** Saúde e bem estar podem ser entendidos como aqueles estados caracterizados por (i) prazer proprioceptivo cenestésico – prazer de estar vivo e estar no mundo através de todos os sentidos; (ii) bom humor endógeno – estados de alegria e disposição/disponibilidade imanentes; (iii) potência e resiliência celular/tissular – força vital disponível e flexibilidade criativa nas células e tecidos.

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Por Filipe Freitas

Adaptado do capítulo Auto-Regulação do livro Cem Flores para Wilhelm Reich, de Roger Dadoun.

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Bibliografia

BOADELLA, David: Nos Caminhos de Reich. São Paulo, Summus, 1985

CANNON, Walter B.:The Wisdom of the Body. Nova York, The Norton Library, 1962

DADOUN, Roger: Cem Flores Para Wilhelm Reich. São Paulo, Moraes, 1991

HIGGINS, M. e RAPHAEL, C.: Reich Fala de Freud. Lisboa, Moraes, 1979

MARCUSE, Herbert: Eros e Civilização. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968

ORWELL, George: 1984. São Paulo, Companhia Nacional, 2004

REICH, Wilhelm: Análisis del Carater. Buenos Aires, Paidós, 1975.

REICH, Wilhelm: Irrupção da Moral Sexual Repressiva. São Paulo, Martins Fontes, 1977

REICH, Wilhelm: Revolução Sexual. Rio de Janeiro, Zahar, 1974

WAGNER, Cláudio Mello: Freud e Reich – Continuidade ou Ruptura?  São Paulo, Summus, 1996.

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