Autopoeta

FORA DO EIXO E A TRANSIÇÃO CULTURAL

Posted in arte, consciência, sociedade by autopoeta on agosto 17, 2013

arte_plantando musica

Li há pouco o extenso documento produzido por Pablo Capilé em resposta às 70 perguntas feitas pelo jornalista André Forastieri e me senti impelido a trazer algumas ideias acerca deste interessantíssimo debate que emergiu desde a entrevista que Pablo e Bruno Torturra concederam ao Programa Roda Viva, no dia 5 de agosto.

Primeiramente gostaria de comentar sobre o tom intimidador das perguntas do André. Senti-me em um tribunal da inquisição na Idade Média, assistindo a uma saraivada de questionamentos visando acuar o entrevistado, como se fosse uma bruxa ou um herege.

Vejo um tom enraivecido muito singular nas manifestações críticas sobre o Fora-do-Eixo e me ponho a investigar de onde vem essa fúria.

Li as críticas da Beatriz Seigner, da Laís Bellini, do coletivo Passa Palavra, do meu amigo Makely Ka, dos dissidentes do FdE em reportagem da Carta Capital, entre outros. Vejo pertinência em todas as considerações, ainda que eu sinta um peso excessivo talvez ocasionado pelas perspectivas muito pessoais que caracterizaram a maior parte dos textos.

Acredito que a trajetória da rede FdE esteja de fato marcada por ações incertas, desvios de rota e equívocos. Afinal, trata-se de um coletivo essencialmente jovem, com grande parte de seus integrantes habitando a faixa etária dos vinte e poucos anos e experimentando novos modos de pensar, criar e agir em um declarado laboratório social. Visto dessa maneira, pareceram-me legítimas as críticas em relação às radicalidades e incongruências do movimento.

Questões diversas, tais como a exigida ausência de autoria e a cooptação de trabalho não-remunerado em arranjos com pouca clareza, expõem a grande dificuldade da rede de colaboradores do FdE em operacionalizar o pensamento novo-paradigmático presente em suas diretrizes e documentos norteadores.

O fato é que, como bem colocou a Beatriz Seigner, artistas dedicam grande parte das suas vidas para compor uma obra e é esta que vai trazer respaldo para se inserirem nos espaços de reconhecimento que os(as) possibilitam se sustentarem em seu ofício. Beatriz, em seu texto, faz uma importante contribuição ao ofício da arte ao valorar a intensa pesquisa e a perseverante dedicação que o cinema, a pintura, a música, o teatro e todas as formas de expressão artística exigem dos(as) autores(as).

Sem entrar no mérito do papel da arte na sociedade (minha visão pessoal é que se trata de uma necessidade muito importante do ser humano),  reconheço o valor íntrinseco e a dignidade daqueles(as) que, com alma, passam “a maior quantidade de tempo possível praticando qualquer forma de expressão artística, seja encarando páginas em branco, lapidando textos, lapidando filmes, treinando danças, coreografias, teatro, seja praticando um instrumento musical (e quem toca instrumentos musicais sabe a quantidade de horas de prática para se chegar à liberdade de domínio do instrumento e de seu próprio corpo, os tais 99% de suor para 1% de inspiração), quem quer que seja que encontre felicidade nestas horas e horas de prática cotidiana artística”, citando a Beatriz e suas  boas contribuições no sentido de valorizar o trabalho de quem tem a arte como ofício.

Por outro lado, entendo que a sociedade brasileira não tem condições e não consegue sustentar, na atualidade, através de financiamentos públicos e privados, todas(os) as(os) jovens que se lançam na seara da criação artística.

Nesse contexto entendo a perspectiva do Capilé de chamá-las(os) para outros tipos de trabalho, apontando a necessidade de, tal como um empresário em início de carreira, precisar em algum momento atuar como produtor, técnico e articulador de seu próprio empreendimento artístico, investindo e promovendo seus produtos/serviços e sim, em certas situações, considerando a ausência de cachê para conseguir benefícios não-monetários.

Quando a arte se torna um produto de uma indústria cuja finalidade é a sustentação econômica de seus agentes, não acho que ela deva ter tratamento especial ou ser considerada de forma diferente de outros sistemas de produção que atendem necessidades essenciais do ser humano, como a indústria alimentícia ou de vestuário.

Conheci muitos artistas que se “ensimesmaram” em trabalhos autorais, reinvindicando políticas de remuneração para sua arte pelo simples fato de serem bens culturais, sem que aspectos como novidade estética e processual, relevância de conteúdo, valor experimental, potencial sensibilizador, repercussão social e outros atributos importantes na valorização de um trabalho artístico fossem considerados.

Aqui cabe uma consideração sobre o mundo fechado que define a indústria da arte: esta, na forma de produtos culturais, muitas vezes parece se descolar da realidade e criar um universo próprio, curiosamente análogo ao de uma seita religiosa.

Trago esta reflexão a partir de minha experiência pessoal: nos meus tempos de juventude universitária, quando trazia comigo um ímpeto criativo muito forte, me deparei com rígidas fronteiras do mundo da arte e constatei que, para adentrar este universo e fazer parte dos circuitos de exposições e festivais, eu precisaria aprender um código bem elaborado de conduta, adequar meu fazer artístico a premissas específicas deste código, bem como aceitar a palavra dos “sacerdotes” que atribuem o valor às obras em suas curadorias e críticas. Corrijam-me se estou enganado.

Pablo Capilé e a rede Fora do Eixo são, nesse sentido, uma afronta ao mundo institucional da arte, aventando práticas radicalmente diferentes de se tratar a produção artística. Não entro no mérito de apoiar ou rechaçar tais práticas, nem tampouco faço um julgamento da forma específica como se deram estas práticas a partir da ação da rede Fora do Eixo. Meu objetivo aqui é refletir de onde vem e o que induz o impulso feroz de ataque às suas ideias e atitudes.

Compreendo que, no afã de promover uma nova forma de produzir e viver, assumindo uma radicalidade pioneira muitas vezes enrijecedora, enfrentando uma forte pressão de um sistema cultural abrangente que se vê ameaçado por esta nova forma de fazer as coisas, misturando-se a uma inexperiência juvenil e a inúmeras fragmentações ideológicas de uma sociedade democrática recém-formada, o Fora-do-Eixo até o momento não conseguiu costurar e dar coesão ao novo paradigma que, na teoria, sustenta sua ação, apresentando recorrentemente uma distância indesejável entre suas intenções e seus gestos.

Apesar disso, reside em mim um apreço pela iniciativa e pelo processo, pela coragem de fazer diferente, criar o novo e propor alternativas. E desta forma vejo toda essa discussão com confiantes olhos de renovação.

Economia solidária, moedas sociais, financiamento coletivo, redes de colaboração, mídias descentralizadas, entre outras perspectivas vivificantes que diluem a concentração de poder e ampliam a capacidade de intervenção das(os) cidadã(os), no sentido de voltarem a ser protagonistas de suas vidas, estão maciçamente circulando pelos grandes conglomerados de comunicação e pelas redes sociais.

Um número enorme de pessoas está tomando contato com um novo paradigma de organização e de produção que vai muito além da rede Fora-do-Eixo ou da Mídia Ninja, cujas características podem definir a economia, a política e a comunicação das próximas décadas.

O convite que faço, portanto, é distinguir o que se refere à trajetória específica do Fora-do-Eixo – com sua importância pioneira restrita a uma experiência particular, um laboratório social – daquilo que é mais abrangente e engloba novas formas de participação, expressão, articulação, e aponta para uma efetiva transição cultural na direção de uma era “pós-rancor”, a partir de uma cosmovisão integradora.

Não ratifico aqui o modelo e a forma de operacionalização que caracterizaram a experiência do Fora-do-Eixo, mas vejo nessa experiência muitos aspectos que podem servir de oportuno aprendizado (sejam como ações funcionais ou mesmo como experiências que não foram bem sucedidas) para novas iniciativas baseadas no mesmo arcabouço de ação solidária em rede.

Em uma perspectiva de integrar, conectar e dar um sentido comum, este texto fomenta o aprofundamento do debate sem que nos coloquemos rasamente a favor ou contra, nem tampouco fiquemos em cima do muro.

Pela lógica convencional parece algo impossível, visto que necessariamente estaremos OU de um lado OU de outro OU em cima do muro.

Em uma nova “dialógica”, poderemos estar de um lado E também do outro lado para assim demolirmos o muro e as fronteiras mentais que dissociam e fragilizam o tecido da sociedade.

O caminho é de descobrir, revelar, suscitar, fomentar e instigar entendimentos e compreensões que promovam a convergência da diversidade humana em uma grande comunidade planetária que emerge de um novo arcabouço cultural.

A transição para este arcabouço está em curso e segue se potencializando através da comunicação em rede. Cabe o alerta de que esta transição não virá de um dia para o outro, mas será fruto de um processo educativo de médio/longo prazo.

O exercício cotidiano é de descondicionamento e aprendizagem. Estamos todos, sem exceção, diante dessa demanda existencial.

Agradeço e faço uma apreciação a todas as manifestações que, reunidas sob a égide do amor à vida, fazem deste tempo um momento muito especial da nossa história.

************

Por Filipe Freitas

Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2013

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LINKS:

 TEXTO DO PASSA PALAVRA

 TEXTO DA BEATRIZ SEIGNER

 TEXTO DA LAIS BELLINI

TEXTO DO ANDRÉ AZEVEDO DA FONSECA

TEXTO DO BRUNO TORTURRA 1

TEXTO DO MAKELI KA

TEXTO DA CARTA CAPITAL

 TEXTO DO BRUNO TORTURRA 2

 ENTREVISTA COM PABLO CAPILÉ PARTE 1

 ENTREVISTA COM PABLO CAPILÉ PARTE 2

 ENTREVISTA COM PABLO CAPILÉ PARTE 3

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3 Respostas

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  1. Makely said, on agosto 19, 2013 at 3:55 am

    Boa análise Filipe. Espero, sinceramente, que você esteja certo!

  2. Dorinha Alvarenga said, on agosto 19, 2013 at 1:21 pm

    Legal Felipe!
    Amo a galera do fora do eixo!!!
    Penso que o momento atual é de nos abrirmos a todas as falas, as todas as tribos!!!
    A internet tem trazido novas formas de are, de diálogo, de posicionamento:
    São outros e novos caminhos!
    O importante é seguir caminhando

    abs
    Dorinha Alvarenga

  3. Guilherme Lito said, on agosto 25, 2013 at 3:17 pm

    Muito maneiro, Filipe! É exatamente isso que tenho pensado. Eles não obrigam ninguém a viver assim, eles não estão propondo isso como modelo, como exemplo. Eu fico me perguntando o que está gerando tanto ódio, tanto rancor… Partindo do princípio de que tudo o que está fora está dentro, me questiono sobre o estado no qual estão todos esses que escreveram sobre o FdE. E se nossas opiniões são formadas por eles, que tipo de sentimento e emoções estão sendo transmitidos para nós? Essa é, para mim, a parte mais relevante dessa história toda. Nada como respeitar ao próximo e entender e acolher onde cada um está no seu processo (inclusive esses que escreveram), não?
    Abração


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