Autopoeta

A FORÇA DA MULTIDÃO É O GRANDE LEGADO

Posted in consciência, sociedade by autopoeta on junho 28, 2013

Padrao_movimento humano na terra

São muitos os aspectos dignos de atenção e reflexão neste momento histórico em que a população se dá conta de sua grandeza, aqui e em todo o planeta.

Estar em multidão nos faz sentir uma enorme força espontânea que emerge da mobilização, em uma magnitude sem precedentes.

Aqui no Brasil, o último movimento de rua na ordem de milhões de pessoas aconteceu em 1992, durante a campanha pelo impeachment do Fernando Collor. No dia em que o Congresso votou a favor do impeachment, eram mais de um milhão de pessoas nas ruas.

Pouco menos de dez anos antes, o movimento das “Diretas Já” havia promovido comícios e passeatas que alcançaram um milhão e quinhentas mil pessoas reunidas.

Antes disso, durante a ditadura, a Passeata dos Cem Mil e tantos outros levantes estudantis foram precursores dessas ondas que encontram nas ruas o seu palco e onde podemos sentir a força da multidão.

Ainda que vejamos muitas semelhanças, esta convergência de agora parece significativamente diferente das demais, pois naquelas havia uma bandeira que unia as pessoas. Seja o regime militar ou o presidente da república, havia uma meta específica.

Agora não temos uma meta singular, e sim uma enorme agenda de trabalho que provavelmente perdurará por algumas décadas.

Em um contexto no qual as bandeiras mais separam do que juntam as pessoas, buscas apaixonadas por respostas sobre como realizar esta agenda diante do desafio da diversidade dão o tom em um momento de incerteza confiante.

Digo confiante pois estamos compreendendo a força das redes sociais retroalimentando a enorme potência da população reunida.

A conquista dos simbólicos 20 centavos na passagem de ônibus, a aprovação do projeto de lei pelo senado que transforma corrupção em crime hediondo, a derrubada da PEC 37, o fim do 14o e 15o salário para os congressistas, a divisão do dinheiro dos royalties entre saúde e educação, a aprovação da PEC do trabalho escravo, o aceno de um plebiscito para a reforma política, em uma grande reação por parte do governo demonstram a força enorme da multidão e avivam um espírito assertivo e sagaz que está presente em cada um de nós.

Muitas pessoas reativaram seu interesse político e sua disposição em participar do processo e colocaram-se em movimento. Uma grande parte segue se orientando por revolta e reclamação – às vezes até por preguiça de aceitar um processo necessário de ressignificação pessoal – e outra grande parte identificando o poder da rede e vendo que, como cidadã(o)s, pode ser protagonista de suas vidas.

Apesar de um quase explícito processo de amansamento do povo desde as origens coloniais, nossa origem indígena mais remota ainda viceja em nossos corações, pulsando o espírito guerreiro em nossas células.

Herança da Confederação dos Tamoios, da Confederação dos Cariris, da Resistência Guaicuru, da Cabanagem, da Vila de Belo Monte (chamada Canudos pelo exército), do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, da Guerrilha do Araguaia e tantos outros levantes populares visando o fim da subordinação do povo a regimes de doutrinação política, econômica e cultural.

Estes não lograram êxito pois não possuíam as ferramentas necessárias para sair do cativeiro. Mas o espírito de liberdade sempre esteve e está em nós, por mais que haja uma força midiática orientada a produzir uma sensação em contrário, ou seja, visando incutir um padrão cultural caracterizado por frouxidão, subserviência e acomodação.

Resta agora compreendermos como fazer para que este poder seja canalizado para a estruturação de um governo plural, democrático, consonante com os anseios da coletividade, esta aqui se estendendo a toda a coletividade da vida do Planeta Terra.

Um novo tipo de governo pode emergir desta ascensão em rede popular, no que vislumbramos canais diretos de participação cibernética que minimizam a necessidade de uma democracia representativa. Podemos criar um sistema de processamento de dados que permita a tomada de decisão participativa que alcança o nível de indivíduos e comunidades.

E começamos a mapear, pela primeira vez, um processo real de transição política, econômica e cultural em que as ações não pareçam soluções paliativas, uma sobrevida ao planeta doente, mas um estado de restabelecimento da saúde social em uma nova eco-lógica que promova a transição para a sustentabilidade.

Que os governos possam, portanto, se tornar aquilo para o qual um dia foram criados: serem organizadores das estruturas sociais e dinamizadores das potencialidades de cada cidadã(o).

É importante, contudo, que não fechemos os olhos e encaremos com o coração aberto a triste realidade de intoxicação patológica das instituições de governo.

O ambiente político está tão contaminado, que qualquer que seja o escolhido para assumir o lugar de comando será forçado a se comportar de maneira complacente ao sistema político-econômico hegemônico subjacente, de modo a se tornar uma força de controle a serviço de uma elite movida por interesses egocêntricos e enormemente distanciados do bem comum.

Somente com a população se colocando em processo participativo de reforma e constituição de uma nova cultura política teremos como substituir os agentes dessa elite dos postos de comando e configurarmos um novo governo de coalizão baseado em princípios como os de inclusão, integração, sustentabilidade e bem-estar.

A grande força política da multidão nas ruas é, portanto, o que de mais ameaçador pode acontecer aos interesses desse comando e isso pode em algum sentido explicar os atos desesperados de autoritarismo repressor através das forças policiais que respondem às ordens do governo.

Precisamos de muita calma e coragem neste momento. As forças hegemônicas parecem agonizar e farão de tudo para se manterem nesta posição de controle. Estejamos juntos, em grupos, organizados, pois assim ganhamos força e, sem atacar, podemos permanecer em movimento adiante, sem tampouco recuar ou fugir.

Temos hoje o que nossos antepassados não tiveram: os meios de comunicação em rede que nos permite organizar e nortear nossas ações em meio ao confronto com as forças de repressão.

E temos acessível a sabedoria da não-violenta ativa, em que podemos acolher a diversidade e focar nas virtudes para cocriar as soluções e atrair a oposição para novos arranjos sinérgicos.

Estejamos conscientes desse enorme poder de comunicação em rede que atua como medicina sobre a força patológica, fortalecendo a imunidade do planeta, da sociedade, integrando a consciência, restabelecendo o equilíbrio e seguindo em movimento pelas ruas.

Ao largo da espessa névoa gerada pelas ideologias paira uma consciência coletiva integradora que nos conecta como seres humanos, para além dos rótulos existenciais.

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  1. […] Fonte: Autopoeta […]


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