Autopoeta

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES E O PROCESSO DE TRANSIÇÃO

Posted in consciência, sociedade by autopoeta on junho 17, 2013

[… que estas não se caracterizem simplesmente por quantidade de gente e volume de barulho, mas principalmente pela qualidade das relações e pela eficácia das atitudes.]

arte_comunicacao colaborativa na diversidade

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Este texto começa a ser escrito ao constatar que estamos diante de uma força de supressão ordenada pelo Estado para conter as manifestações populares neste inverno de 2013.

Atos recorrentes de opressão à liberdade de expressão violam a constituição e afrontam a democracia e expõem a discrepância insana entre governo e sociedade, o primeiro a serviço de forças políticas e econômicas que representam 1% da população.

Penso que esta repressão violenta parece oriunda de um medo estrutural crescente que o governo e quem está por trás dele estão sentindo. Em algum lugar, já perceberam que a configuração em rede é soberana e esta se faz uma grande ameaça aos seus mecanismos de manipulação e controle.

Nutro uma convicção de que o fluxo dessa rede consciente emergente é inexorável e mais cedo ou mais tarde um novo paradigma integrador vai prevalecer e dissipará essa estrutura dominadora que parece parasitar o corpo da sociedade e o planeta Terra como um todo.

No que se amplia a consciência da grande rede planetária da qual somos parte, proporcionalmente emerge e se fortalece o sentimento de confiança em nossas potencialidades para superar, efetivamente, o poder mórbido desta pequena elite e determinar novos estilos de vida sadios, caracterizados por equilíbrio e bem-estar.

O levante popular que está em curso vem revolver uma paisagem sedimentada na inércia, fruto do processo de amansamento por que passou o povo brasileiro por séculos.

Estamos nos colocando em movimento e o caminho é longo, bastante longo. Não serão dias, nem meses, mas anos, décadas de trabalho. Que tenhamos este planejamento estratégico de longo prazo para que possamos vislumbrar um processo real de transição cultural e não uma solução paliativa, uma sobrevida ao planeta doente.

A cura biológica, social e humana, que se expressa na superação da crise aguda de percepção e consciência, não vai acontecer de uma hora pra outra e será resultado de muito trabalho para lograr unir os esforços em torno do que nos conecta como humanidade, para além das ideologias. O que é comum a todos nós, os outros 99% da população?

Onde encontramos a união em meio a tantas bandeiras?

Possivelmente ela estará em torno das virtudes universais: o que temos de bom, belo, justo e verdadeiro, mesmo que isso não nos exima de conflitos, pois o que é bom pra um talvez não seja para outro.

Entretanto, para além de toda a poluição mental ideológica que nos fragmenta e fragiliza, encontramos a humanidade em cada um(a), independente do rótulo, do papel, do ofício a que nos dedicamos, e encontramos a ligação de cada humano com a natureza inteira.

Este é o foco que nos fará uma força coesa de alcance mundial.

Porém, francamente, temos que reconhecer que não é assim que grande parte da população compreende a realidade.
Aí habita a complexidade e o porquê de pensar em décadas para lograrmos a transição efetiva, pois o contexto cultural reproduz e reforça em grande medida práticas e valores distanciados e até antagônicos a estas virtudes.

Em certo sentido, o governo espelha a sociedade. A corrupção e o autoritarismo que combatemos no governo podem ser identificados na trama das relações do povo: nas famílias, nas empresas, nas escolas, etc.

São muitas décadas, séculos, de distorção de valores e informações manipuladas, incutidas culturalmente pelos mais variados veículos.

Como então deixamos de ser uma massa partida de manifestantes movidos por ideologias e permeados pela revolta e nos tornamos um enorme coletivo de ação eficaz?

Como criar arranjos organizacionais que permitam o surgimento e a sinergia de lideranças e agentes comprometidos na alma com o processo de emancipação da sociedade?

Uma extensa caminhada começa com os primeiros passos e nessa perspectiva de longo prazo precisamos agora encontrar uma linguagem que nos una, nos torne uma multidão bem orientada e consciente do enorme poder de fazer acontecer, atuando com sabedoria e estratégia para dissipar qualquer possibilidade de um governo autoritário e repressor.

O movimento Occupy de 2011 talvez tenha sido o que mais nos aproximou dessa possibilidade de expressão integradora contínua em uma estratégia pública, pacífica, com força mobilizadora e assertiva capaz de influenciar a política, a economia e a comunicação, os eixos sobre os quais se assentam as estratégias de controle global.

Associo a dispersão do movimento Occupy à constatação de que a tarefa da transição não se conclui no movimento de ir à rua e protestar, mas precisa, como sugerido, deflagrar um grandioso processo educativo que sustente de fato as mudanças no governo.

Pois, afinal, reflitamos. Como seria um novo governo caso conseguíssemos a emancipação da sociedade hoje? Parece não haver este desenho que garanta a visão plural de um governo efetivamente popular.

E por isso faz-se ingenuidade pensar em qualquer outra forma de transição que não pressuponha uma estratégia educativa de largo alcance nas próximas décadas que capacite as pessoas a viver em comunidade, dialogar com a diversidade e gerar sustentabilidade.

Fica este convite de olhar de frente para o enorme desafio de educar e educar-se, que precisa acontecer para que um novo estado de consciência se eleve e sustente um novo modo de fazer política, economia, comunicação, de produzir mercadoria e conviver.

Irmos à rua e manifestarmos nossa discordância com o atual estado das coisas é uma ação legítima e necessária, faz parte do processo e estejamos motivados a esta tarefa. Mas estejamos cientes que é apenas o início do trabalho.

Escrevo este texto com o firme propósito de contribuir para o fortalecimento das manifestações e que estas não se caracterizem simplesmente por quantidade de gente e volume de barulho, mas principalmente pela qualidade das relações e pela eficácia das atitudes.

Cabe aqui uma reflexão para que não usemos óculos com aros cor-de-rosa e assim tenhamos uma visão ingênua do processo:

Este 1% da população que determina a dinâmica da sociedade hoje detém muito poder em mãos: armamentos, energia, produção industrial, mídia, controle do dinheiro.

(Todo este poder advém de cada um de nós, no que oferecemos nossa força de trabalho e de consumo reforçados por um estado de inconsciência. Na medida em que despertamos, verificamos que o tamanho desse poder da elite é diretamente proporcional à ignorância da população e isto gera convicção de que os obstáculos não são intransponíveis.)

Lamentavelmente, este 1% não está disposto a partilhar o poder e segue em um fluxo egocêntrico de acumulação de recursos e disputas existenciais pelo domínio do planeta. Ou seja, pode colocar tudo a perder.

Agora, todo o resto da população também pode colocar tudo a perder se seguir alimentando a lógica da violência e se dispor a um movimento bélico de contra-ataque e confrontação.

Seja lá qual for o inimigo que somos levados a criar, o exercício agora é atuar com o coração, não-violentamente, focando nas virtudes e encontrando os links que nos façam cocriar as soluções e atrair a oposição para uma nova configuração sinérgica.

O grande desafio a cada um é acolher a diversidade no coração e não se colocar como detentor de uma suposta verdade. Em um mundo complexo, turbulento e em profusão, as verdades são múltiplas e cada ser carrega consigo um ponto de vista legítimo, por mais que não concordemos com ele.

Olhemos no olho de quem nos olha e ali podemos encontrar os valores que subjazem para além das ideologias, opiniões, filosofias e moralismos. Por trás do deputado, empresário, soldado, estudante, somos todos humanos, criaturas vivas, transeuntes nestes ciclos efêmeros de vida.

Estamos todos acometidos pela mesma doença social e planetária e esta enfermidade só será curada quando encontrarmos o padrão que nos conecta como humanidade e como seres vivos.

Acolhendo as individualidades para apreciar os variados instrumentos que cada um de nós traz para executar a sinfonia, seremos capazes de celebrar as diferenças e trabalharmos juntos no sentido do amor em comunidade, comunidade aqui entendida como a grande teia da vida que compõe nosso corpo cósmico, a Terra.

Que este texto não arrefeça o ímpeto de ação ao expor a complexidade do processo de transição, mas, ao contrário, contribua para que este movimento amplie sua lucidez e faça o que tem que ser feito. Avante!

 

Rio, 17 de junho de 2013

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7 Respostas

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  1. walter josé rodrigues matrangolo said, on junho 17, 2013 at 3:07 pm

    Alfabetização ecológica, ecoalfabetização: nomes para uma propsota simples e revolucionária: oferecer a tod@s, conceitos TOTALMENTE opostos aos disseminados pela cultura materialista que vem destruindo esperanças e vidas. Capra (CAPRA, F. 2002. As conexões ocultas. Ciência para uma vida sustentável. Ed. Cultrix. SP. 296 p.) sintetisa a Ecologia em 06 princípios que fundamentam a lógica da vida. Afina, temos normas para redação, para fazer contas, para fazer músicas, mas as fundamantais para a continuidade da vida? Onde estão? No inconsciente coletivo por certo, AINDA não estão.

    REDES: Em todas as escalas da natureza, encontramos sistemas vivos alojados dentro de outros sistemas vivos – redes dentro de redes. Os limites entre esses sistemas não são limites de separação, mas limites de identidade. Todos os sistemas vivos comunicam-se uns com os outros e partilham seus recursos, transpondo seus limites. CICLOS: Todos os organismos vivos, para permanecer vivos, têm de alimentar-se de fluxos contínuos de matéria e energia tiradas do ambiente em que vivem; e todos os organismos vivos produzem resíduos continuamente. Entretanto, um ecossistema considerado em seu todo, não gera resíduo nenhum, pois os resíduos de uma espécie são os alimentos de outra. Assim, a matéria circula continuamente dentro da vida. ENERGIA SOLAR: É a energia solar, transformada em energia química pela fotossíntese das plantas verdes, que move todos os ciclos ecológicos. ALIANÇAS (PARCERIAS): As trocas de energia e de recursos materiais num ecossistema são sustentadas por uma cooperação generalizada. A vida não tomou conta do planeta pela violência, mas pela cooperação, pela formação de parcerias e pela organização em redes. DIVERSIDADE: Os ecossistemas alcançam a estabilidade e a capacidade de recuperar-se dos desequilíbrios por meio da riqueza e da complexidade de suas teias ecológicas. Quanto maior a biodiversidade de um ecossistema, maior a sua resistência e capacidade de recuperação. EQUILÍBRIO DINÂMICO: Um ecossistema é uma rede flexível, em permanente flutuação. Sua flexibilidade é uma consequência dos múltiplos elos e anéis de realimentação que mantêm o sistema num estado de equilíbrio dinâmico. Nenhuma variável chega sozinha a um valor máximo; todas as variáveis flutuam em torno do seu valor ótimo.

  2. Serrano Neves said, on junho 17, 2013 at 5:22 pm

    Li este texto por via de divulgação em uma lista de discussão.
    É só uma coisa; CONTE COMIGO

  3. […] Fonte: Autopoeta […]

  4. Denir said, on junho 21, 2013 at 12:26 pm

    excelente texto! recebi por email, de um amigo.
    Traduz o que penso, em termos de sinergia, processos transformatórios que fazem paret de sistemas complexos e emergentes.
    Parabéns!

  5. Celso do Lago Paiva said, on junho 21, 2013 at 1:13 pm

    Pena que o texto não declare a autoria…
    Celso do Lago Paiva
    http://br.groups.yahoo.com/group/proendemicas/

    • autopoeta said, on junho 21, 2013 at 11:12 pm

      Caro Celso,

      Este texto foi escrito por mim, o criador deste blog. Meu nome é Filipe Freitas e você pode conhecer um pouco mais sobre mim nos links “Quem lhes Fala”e “Trabalho”.

      Grato pela visita e pelo interesse pelo texto.

      Fraternalmente,

      Filipe

  6. Carlos Sergio said, on junho 22, 2013 at 10:06 pm

    Filipe, seu texto revela um recondito eco-marxismo reformatório, uma bela intenção sem dúvida. São pensamentos que facilmente partilhamos quase in totum!. Discordo apenasx pois não vi a censura governamental e sim sua tradicional e funcional inépcia de desagregar os vândalos..

    Gostaria de acrescentar que a dificuldade de parear utopias precisa ser também enfrentada por todos, pois só o detalhamento profuso dos sonhos pode fazer nascer um precoce indicativo de direções consensuais.
    Cortar o vandalismo não basta ! É preciso ampliar o parque de pessoas sonhadoras.
    Calser


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